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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sinais de primavera

A primavera começa oficialmente no Brasil em 23 de setembro. Bem antes começam a aparecer sinais de que o inverno terminou, e esses sinais ajudam a ficar atento para que o "timing" das intervenções no viveiro não seja perdido. Costuma-se dizer que para cultivar bonsai é necessário paciência, mas não é bem assim: é mais uma noção de "timing", inclusive para agir rápido quando chega a hora. Há coisas que não podem ser apressadas, e é importante saber esperar. E há coisas cujo momento passa rápido e precisam ser percebidas e o momento aproveitado. Caso contrário, os efeitos podem não ser os desejados ou mesmo matar a planta.

Além de ficar atento às plantas, pode-se aprender a ler outros sinais de mudança da estação. Enquanto escrevo, um casal de carcarás se acasala empoleirados em antenas no prédio em frente, e ouço os sabiás-poca cantando. Ontem à noite houve revoada de cupins (que sinalizam aumento da temperatura, mas chuvas ainda longe).

Abaixo: um dos sinais mais precoces da mudança de estação é o retorno das "Maria-branca" - seu nome na minha região de origem -, também chamadas de "primavera". Trata-se de Xolmis cinereus. Seu retorno é percebido pelo canto (impressionantemente melódico e suave, com poucas notas) bem cedo (vale a pena procurar e ouvir na net). Esse ano vi uma chegando às antenas de repetição de sinais de telefonia no dia 28 de agosto, por volta das 8:15 da manhã. Não cantou e se demorou pouco por aqui (área urbana). A foto abaixo foi copiada de site,conforme citado:

Ficha da foto
fonte: http://www.wikiaves.com.br/fotogrande.php?f=704432
]
Xolmis cinereus (Vieillot, 1816)

Autor: Claudio Lopes
Local: Santa Cruz de Minas/MG
Feita em: 31/07/2012
Publicada em: 31/07/2012
Câmera: Canon EOS 7D

Note-se o ceu azul e folhas velhas, típica imagem do final da estação seca.

Abaixo, outro migrante que reaparece no final do "inverno": Tesourinha, em foto também copiada na net. O autor foi José Reynaldo da Fonseca.


Com tantos indícios, a atenção sobre as plantas fica mais aguçada. Observa-se para avaliar se cabe fazer o hagare (desfolha). Esse Ulmus estava com folhas velhas e gemas começando a inchar. Foi totalmente desfolhado em 28 de agosto.

Abaixo: apenas 5 dias depois as gemas se transformaram em brotos que começam a abrir. O "timing" adequado (em relação à mudança de estação, e também conforme o ritmo de cada planta - nem todas estão no mesmo estágio de despertar) traz resposta rápida.
Abaixo: outro lado. Além de desfolhar, também se faz uma seleção de galhos, retirando os atravessados, etc.


Abaixo: 5 de setembro: os brotos já se abriram e começam a crescer. Agora é ficar de olho para fazer o "metsume" (poda dos raminhos, retirada das extremidades, de modo a direcionar o formato das "nuvens de folhas" e incentivar ramificação).

Abaixo: os brotos continuam se desenvolvendo. Marcação cerrada: quando atingem alguns centimetros e já tem 4-5 pares de folhas, é feito o metsume deixando-se o comprimento adequado, conforme posição (quanto mais alto, mais curto). Os galhos mais fracos e vazios, à esquerda do leitor, são deixados mais livres, pois precisam se desenvolver melhor e concentrar forças.

Abaixo: brotos crescendo demais e ficando muito fortes e compridos, com perda da forma da árvore. Metsume neles.

Abaixo, mesmo dia da foto acima, após metsume.

Abaixo: vista da face inferior do galho à D., mostra brotos inadequados. A face inferior dos galhos deve ser livre, mostrando a ramificação.

Abaixo: mesmo ângulo da foto acima, após retirada do broto inadequado. Os arames também estão sendo gradativamente retirados.

Abaixo: breve pausa no trabalho, para uma checada geral, contra fundo limpo. Cuidado para não perder de vista o objetivo: preencher os espaços vazios, permitir formar "nuvens de folhas", com ramificação tridimensional e não apenas com galhos "achatados" no sentido horizontal, ir dando roma arredondada à copa, sem perder proporcionalidade.


Abaixo: está indo, enchendo bem a copa. Nessa fase, muito calor, ar ainda muito seco, e folhagem agora abundante (além do metabolismo intenso) aumentam a demanda por regas: duas vezes ao dia.
 A adubação também aumenta conforme a demanda: Biogold e borrifação de "Peters" (aquele usado em orquídeas). E mantenho a marcação sobre os brotos que passam do ponto ou crescem em direção ou posição ruins.

Abaixo: essa árvore tem defeito no nebari (inversão no lado E do leitor). Esse espaço precisa ser preenchido com pedra e musgo para dar estabilidade à imagem da árvore. É possível corrigir com enxerto de raízes ou alporque (escarificando o local onde se deseja emissão de raízes, cobrindo com substrado e regando com Superthrive). Mas estou com preguiça de fazer isso, talvez no futuro.

Abaixo, outro exemplo de como o ritmo das plantas é individual: esse outro Ulmus foi desfolhado em meados de julho (foto abaixo, desfolhado).

Abaixo, a mesma planta uns 20 dias depois: a desfolha mais precoce também tem resposta mais demorada (a temperatura ainda não havia subido tanto como agora, e pode ter sido um fator que tornou o retorno da brotação mais lento). Nessa foto abaixo a planta estava sendo preparada para metsume.

Abaixo: depois do metsume. Mais uma vez, foram deixados brotos mais compridos no primeiro galho à direita (que aliás é um enxerto), que precisa ganhar vigor e ramificação tridimensional.

Abaixo, alguns dias depois. Detalhe: borrifar adubo (principalmente orgânico, como Hufimax) atende também às micro-orquídeas.

Abaixo: primeira vez que floriu, foi uma surpresa: a espécie é diferente da que eu havia imaginado.

Abaixo, close da micro-orquídea. Suponho ser Maxillaria cogniauxiana (embora as plantas tipo dessa espécie costumem ter flores de coloração de um vermelho mais escuro). Nativa da minha região, adaptou-se super bem à convivência com o Ulmus no vaso.

Abaixo: os resedás (Largestroemia indica) de idades e em condições diferentes respondem à mudança de estação em ritmos diferentes.

Essa planta abaixo é jovem (está sendo trabalhada há uns 5 anos), e atravessou o "inverno" com as folhas, sem ser perturbada. Resultado: começou a rebrotar sem ter trocado as folhas velhas. Portanto, foi feita desfolha quando vi que os brotos novos já estavam se abrindo. Aproveitei para selecionar galhinhos.

Abaixo: a mesma planta da foto acima, depois de hagare (desfolha) e metsume dos galhinhos indesejados.

Abaixo: esse resedá é o mais velho do viveiro, tem mais de 15 anos. O metabolismo das plantas se lentifica com a idade, e essa planta é sempre a primeira a perder as folhas no outono e a última (dos resedás) a despertar do inverno. Esse ano, ficou feia por mais de 6 meses, cheguei a pensar que os galhos haviam (pelo menos em grande parte) morrido. É um alívio ver que está voltando. Com esse histórico (e susto), o metsume dos brotos novos vai ser muito menos agressivo: vou evitar tirar força da árvore (quando se retira brotos, a planta precisa ter reservas e fazer esforço maior para recompor a copa) e permitir que fique mais cheia (e bem nutrida), retirando o minimo possível de brotos, mesmo quando em posição ruim. Essa folga também aumenta a chance de florir mais.

Abaixo: detalhe de gemas inchadas, em intenso metabolismo para produzir folhas novas. Transplantar nesse momento é alto risco.
Acima: brotos que saem de trás (não só nas pontas) são muito importantes para compensar perdas de galhinhos e assegurar renovação da copa sem perda da forma. Não toque!: melhor deixar sossegado até estar forte o suficiente para ser metsumado ou aramado, se precisar.

Abaixo: este terceiro resedá também é jovem, e teve evolução muito mais harmônica: as folhas se amarelaram por igual no final de julho, foi desfolhado no final de agosto, e agora já está brotando. Ainda não fiz o metsume, não tive tempo. Vou fazer no próximo final de semana. Provavelmente a posição do vaso no viveiro, mais exposto ao sol que o primeiro resedá mostrado acima, também teve papel no comportamento da árvore.

Abaixo: duas jovens Kinzu (laranjinha - Frutinella japonica), mostradas em postagem anterior, foram desfolhadas no final de agosto e agora estão a pleno vapor. A outra variedade dessas laranjinhas é a kinkan, com tamanho de uma azeitona. As kinzu são do tamanho de ervilhas ou pouco maiores. Mesmo tendo sido aramadas (sem folhas fica mais fácil), estão voltando rápido. Quando se desfolha essas laranjinhas fora de época pode levar meses para a brotação voltar, e ainda pode voltar desigual e cheia de falhas. Detalhes da espécie: metsume só depois dos brotos crescidinhos, e retirar brotos que aparecem no tronco (competindo com os galhos aramados), a não ser que sejam brotos que serão galhos úteis, para estilização ou como sacrifício (para engrossar o tronco). E muita atenção quando vários galhos estão muito próximos: tendem a formar pontos muito grossos do tronco, invertendo a conicidade. Vamos ver se vão florir.


Abaixo: botões novos atraem pulgões, cuja presença pode ser suspeitada quando se encontra uma joaninha. Durante o inverno as borrifações com calda sulfocálcica protegeram muito bem as plantas, que parecem limpas de pragas. Por isso, ao invés de já borrifar inseticidas, vou observar mais, e tentar usar apenas os menos agressivos - rotenona, óleo de neem, pimenta e calda de fumo (nicotina). Afinal, os insetos também são interessantes e sinalizam saúde do ambiente. Essa joaninha abaixo (não sei o nome científico) caça pulgões nas mudinhas de tangerinas.


Abaixo: várias orquídeas florescem no final da seca, antes do retorno das chuvas.

Abaixo: Gio e Fafá também se encorajam a entrar na água, que começa a ficar mais quente. Encher apenas metade da piscina ajuda a água a ficar mais quente e ainda facilita para o Gio. Embora faça natação desde os 4 meses, não dá para perder de vista, e com menos água ele não se afoga. Assim permitimos que ele se desenvolva sem riscos desnecessários.

Abaixo: borboletas que se criam na hera do muro começam a reaparecer. Gio observa uma que acaba de emergir do casulo, ainda mole. O final da seca é época com maior variedade de espécies de borboletas que o auge da primavera e verão, embora as espécies possam variar conforme a época do ano (algumas muito efemeras, ocorrem apenas em momentos muito específicos e breves).

Apresento-os: Marpesia petreus, esse é o Giordano. Giordano, essa é a Marpesia.

Abaixo: em poucos minutos as asas se distenderam e endureceram. Gio tocou uma asa e deixou digitais nas escamas.

Abaixo: mais orquídeas floridas. Essas são híbridos, difícil descrever os gêneros e espécies que as originaram.




Abaixo: essa é uma espécie natural. Asiática, se adapta muito bem aqui. Flores duráveis e perfumadas.

Por último: esse simpático abacaxi selvagem está crescendo lentamente, desde meados de junho. Finalmente floriu (perdi oportuniadade de fotografar as florinhas azul-arroxeadas, tubuliformes, cujos restos ainda podem ser vistos como pontinhas no corpo do abacaxi, dando aspecto espinhento à fruta), ainda vai crescer mais um pouco.





Acima: uma visão da planta. Merece um vaso de verdade. Provável Ananas ananassoides, abacaxi selvagem, mudinha veio do litoral do Rio, onde é nativa. Também ocorre em grande parte do cerrado brasileiro. Fruta super ácida, mas dá para fazer suco, cozinhando inclusive com a casca, com gengibre e canela, coa-se e coloca-se para gelar.

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