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terça-feira, 29 de maio de 2012

Bonsai, penjing e Glossário - parte 1

A postagem "bonsai ou penjing" está sendo a mais lida (em número de novas visitas, perde apenas para a sobre micro-orquídeas em bonsai), o que me encorajou a voltar à questão conceitual.
Aproveito e tento contribuir também com descrições de significados de termos usados no "jargão de bonsai". Essas descrições vão de traduções literais de dicionários a tentativas de descrever uma noção, incluindo conceitos que podem ser considerados mais razoavelmente estabelecidos, pelo menos na maioria das fontes consultadas.
Muitas vezes optei por apenas traduzir o que algum determinado autor escreveu, preservando algumas nuances e sutilezas.
A maioria das expressões usadas no contexto de bonsaísmo têm status não de palavras conforme os dicionários, mas de conceitos, ora mais, ora menos desenvolvidos; e ora mais, ora menos universalmente aceitos. Algumas expressões referem noções ainda pouco trabalhadas, algo vagas, de difícil objetivação, e a descrição de seus significados pode não ser tida como correta por todos.


Começo com um Pequeno glossário ilustrado, parte I
(palavras já usadas por aqui, ou referidas nos links indicados)

Bonkei - paisagem com outras plantas, figuras de animais, construções, objetos etc. Palavra japonesa para as criações penjing com aqueles componentes.
Bonseki (ou bonsekei) - paisagem com plantas, mas sem figuras, apenas pedras, musgo e árvores. Mesmo que "saikei . Essa definição, assim como de alguns outros termos desse glossário, foi traduzida de Craig COUSSINS "Totally bonsai", 2001, p. 71 e 72.
Sobre os termos bonkei, bonseki, bonsekei e saikei, escrevi em 30 de maio de 2012 ao Peter Tea, que está como aprendiz no Viveiro de Bonsai Aichi-en - de Junishiro Tanaka (Japão) - há quase dois anos. Ele respondeu:
"I wouldn't consider penjing as bonkei because penjing doesn't always have rocks and figurines.  There are also over 30 different styles of penjing out there. The Japanese community actually doesn't use the word saikei very much.  Mr. Tanaka didn't even know what that was.  He says they usually refer to them as bonseki or bonkei."
Traduzo: "Não consideraria penjing como bonkei, por que penjing nem sempre tem pedras e figuras. Há mais de 30 estilos diferentes de penjing por aí. A comunidade japonesa na verdade não usa muito a palavra saikei. O Sr Tanaka nem sabia o que era. Ele disse que normalmente usa as palavras bonseki ou bonkei" (para as paisagens em bandeja). Aproveito para indicar o blog do Peter: http://peterteabonsai.wordpress.com/
Bonju - a árvore bonsai
Dai - Mesa para expor bonsai. Quando se usa uma fatia de árvore como apoio, ela é chamada "ji-ita". Quando é uma mesinha esculpida, como se fossem raízes, é chamada ne-taku.

Abaixo: exemplos de apoios para expor bonsai e acompanhamentos do site de artista especializado (link: http://jbbespokebonsaistands.blogspot.com.br/)


Ji-ita - uma fatia de árvore.

Ne-taku - para plantas em estilo cascata.

Ne-taku para outros estilos e acompanhamentos
Todas as fotos são do site de 

Daiza - base de madeira esculpida para apoiar um suiseki.
Hachi-no-ki - uma planta qualquer num vaso (não um bonsai)
Hagari - desfolha completa da árvore
Jin, jinning - áreas de madeira exposta nos galhos.
Ju schin - ápice do bonsai
Matsu - nome genérico dos pinheiros
Metsume ou metsumi - poda dos brotos e galhinhos novos, geralmente reduzindo-os a um par de folhas
Nebari - Raízes aparentes, a parte da árvore que a fixa ao solo.
Omote - "Rosto, face". A frente da árvore.
Shari - áreas de madeira exposta do tronco, sem tecido vivo. Shoki - material para bonsai coletado (yamadori) já estabilizado
Suiseki - pedra, ou a arte de explorar a beleza natural de pedras. No Japão a arte suiseki é considerada uma arte separada de bonsai, embora seja comum usar suisekis como acompanhamento das árvores, principalmente  dos shohin. Assim como há diversos estilos de bonsai, há diversos estilos de suiseki. Um mundo à parte.


Abaixo: um suiseki na bancada junto com os bonsai. Estando na bandeja com areia, já fica mais para penjing que suiseki.


Abaixo: assim como acontece com a distinção entre penjing (paisagem) e bonsai (árvore no vaso), quando a pedra é colocada em um contexto sugerindo paisagem ela é um penjing, não um suiseki.



Detalhe da foto anterior. Um pedacinho mal trabalhado de madeira sugere um barco junto ao penhasco, num mar raso de corais, e rompe a fronteira entre suiseki e penjing. A bandeja sobre a qual se coloca a pedra (às vezes com água de verdade) é chamada "suiban". Assim como há aficcionados por bonsai, também os há por suiseki, uma comunidade à parte.


Abaixo: exemplo de suiseki de Andrea Inzani. Veja-se o detalhe do suporte da pedra ("daiza"), esculpido para se ajustar e valorizar a pedra. Retirado de http://suiseki.aicon.com/friends.php?l=it Merece uma visita.




Tangei - material para bonsai; forma de se referir a alguma planta querendo dizer que é boa para bonsai
Tachiagari - tronco do bonsai, entre o nebari e o primeiro galho.
Ten-jin - jin no ápice da árvore (comum em coníferas)
Ten kei - figuras (animais, pessoas) usadas como acompanhamento. Está sendo preparada postagem sobre ten-kei.
Uro - buraco no tronco com bordas cicatrizadas (não um buraco no shari).
Ura - as costas da árvore. Lado contrário à frente (omote)
Yamadori - material para bonsai coletado na natureza (ou em jardins, etc.).


Como se vê, não incluí nesse glossário as duas expressões mais difíceis de definir - Bonsai e Penjing. Elas merecem abordagem mais detalhada. Vejamos:


Para começo de conversa, deve ser observado que ambas as palavras ora são usadas para se referir à arte - Bonsai ou Penjing -, ora às obras criadas com aplicação dessas formas de arte. Em português também existe essa duplicidade: uma "pintura" pode ser um quadro ou o nome da arte, assim como escultura pode ser a arte ou o resultado do ato de esculpir.


Bonsai - etimologicamente - é "planta num vaso", sendo que por "vaso", também se aceita objetos de função similar: uma pedra, uma cavidade num tronco, etc. Portanto o conceito de bonsai rompe cedo com sua origem etimológica.

Vamos ver o que dizem alguns autores:

Não há tradução conveniente para o inglês: uma árvore ou arbusto treinado e podado de forma a lembrar uma árvore completamente desenvolvida, cultivada numa vasilha rasa, para efeito artístico e como uma impressão de natureza. (...) "bonsai" implica muito mais que a tradução literal. Implica um elemento de arte que distingue um bonsai de uma árvore num vaso. (TOMLINSON, H. 1991, p. 9).

Bonsai consiste em uma árvore estilizada, cultivada num vazilhame raso, cheio de solo, e podada para criar a ilusão de uma árvore madura ou velha. (O´SULLIVAM, P. 2004, p. 4)

É fácil presumir que bonsai consiste simplesmente em cultivar uma árvore miniatura num vaso pequeno, mas nada poderia estar mais longe da verdade. Um bom bonsai é na verdade uma representação artística da natureza em microcosmo. (...) Assim, pensar em bonsai apenas como uma planta num vaso, ainda que a planta seja uma mini árvore, não é justo. Arte é um componente tão importante do bonsai que os japoneses têm uma palavra diferente - hachi-no-ki -, para se referirem a uma planta comum em vaso. Embora a arte bonsai seja equiparada a copiar a natureza, um bonsai bem feito é na verdade a "visão da natureza" do artista que o criou. (LANG, S. & Sunset Books Ed., 2003, p. 6).

Bonsai (...) é uma arte com método singular, através do qual árvores e arbustos são cultivados. (KAWASUMI III, M., 2005, p. 8).

Bonsai é uma árvore que, miniaturizada seja por meios naturais ou artificiais, é cultivada em vasos e treinada em formas naturalmente bonitas. (...) O ponto mais importante da beleza de um bonsai é sua forma, portanto - e mesmo quando sua forma é fantástica - não pode ser grotesca. (YOSHIMURA, Y., HALFORD, G.M., 1957. p. 21). 

Quanto a esta última citação, de Yoshimura e Halford (1957) - provavelmente do "tratado de bonsai" mais antigo publicado em inglês -, não posso deixar de sugerir a leitura de toda a introdução (p. 13-20), cuja descrição da evolução da arte também ajuda a entender a evolução do conceito.

Como se vê, conforme os contextos de uso das palavras, seu significado pode ser diferente do citado nos dicionários. A tendência no Brasil e na maioria dos blogs e livros visitados é considerar "penjing" como sinônimo de "paisagem"; e "bonsai" para a árvore no vaso. Essas separações não são rigorosas, mas existem diferenças bem estabelecidas e de reconhecimento fácil.



Vamos ver a comparação feita por O´SULLIVAN (2004).


Primeiro, um shujuang penjing (bonsai na arte penjing), ou melhor, um bonsai na tradição chinesa, do livro de O´Sullivan (2004, p. 10).




E um bonsai na tradição japonesa (O´Sullivan, op. cit., p. 11).

Escreve O´Sullivan: 

À primeira vista, diferenças entre bonsai chineses e japoneses podem parecer discretas. Bonsai chineses podem ser maiores, atingindo até 5 pés de altura, enquanto os japoneses são tipicamente abaixo de 3 pés. Os japoneses acentuam a impressão de altura da árvore com a conicidade dos troncos, enquanto os troncos dos chineses se alargam menos. Da mesma forma, tanto as raízes como os galhos nas criações chineses tendem a ser mais delicados que nas japonesas. Os chineses usam vasos mais chamativos, como cerâmicas  decoradas e coloridas. Esses vasos são às vezes maiores e mais largos que os usados pelos japoneses e têm mais importância na estética da criação chinesa como um todo. PENELOPE O´SULLIVAN, 2004. p. 10.


Sobre a classificações dos bonsai, NAKA (1973), no livro Bonsai Techniques I (p. 121-122) refere as seguintes denominações para os bonsai, conforme seu tamanho, sem incluir o vaso:
Bonsais muito grandes ou hachi-uye, com mais de 4 pés de altura

Bonsais grandes ou Omono-bonsai - cerca de 4 pés de altura

Bonsais médios ou chumono-bonsai - cerca de um pé e meio de altura, ou um vaso que um homem comum pode carregar. O melhor para exposições.

Bonsai de uma mão, ou katade-mochi-bonsai - entre 8 e 15 polegadas de altura, dependendo do estilo da árvore. Por exemplo, a altura das árvores plantadas em rocha não é medida com a rocha. Esse tamanho corresponde ao que se pode carregar com apenas uma mão.

Bonsai pequeno ou komono-bonsai - entre quatro e sete polegadas. Facilmente apoiável em apenas uma mão.

Mame-bonsai - quando se pode carregar até 3 ou 4 vasinhos na palma de uma mão.

Keshitsubu - bonsai muito pequenos, geralmente semeados diretamente no vaso miniatura.

Como se vê, a forma como Naka classifica é bastante informal.

Muito mais recente, ALBEK e SCHOECH (2007) oferecem classificação mais definida em termos de medidas, a qual vem sendo usada neste blog. Esses autores também alertam para não se tomar a sério demais as medidas numéricas, usá-las como uma referência, e ter na impressão que cada árvore causa um critério melhor para decidir em que categoria se encaixa. Abaixo transcrevo a classificação deles, acrescentando uma tradução aproximada dos termos, conforme obtida no dicionário japonês-português (Michaelis Dicionário Prático Japonês-Português, coord. WAKISAKA, K., 2006):

Chuhin-bonsai - altura máxima 60cm; mínima 30cm. Chu-hin = "artefato grande". Associado à palavra bonsai, é expressão para "bonsai classificado como grande".

Kifu-bonsai - altura máxima 35cm; mínima 25cm. Ki-fu = "parecido com árvore".

Shohin bonsai - altura máxima 25cm; mínima 10cm. Sho-hin = "artefato ou objeto médio".

Mame-bonsai - altura máxima 10cm; mínima 7cm. Mame = "grão" e, portanto, "pequeno".


Existe uso similar da palavra "grão" em português para adjetivar algo cuja pequenez se deseja comunicar.
Importante: dada a evidente hegemonia dos japoneses na arte bonsai, percebe-se que mesmo autores de tradição chinesa já se apropriaram da palavra japonesa e a usam correntemente, inclusive para se referirem a obras criadas na tradição penjing.
O termo japonês está portanto fazendo o caminho inverso. Com raízes na China, a arte bonsai, após ter-se desenvolvido e sofisticado no Japão, dissemina-se agora para o mundo - inclusive a própria China - exportando não só as palavras japonesas, mas os conceitos estéticos.
Essa gradativa ampliação já mostra sinais de mesclas de culturas nos países onde os aficcionados, trabalhando a partir de suas próprias culturas, materiais e padrões, continuam a desenvolver a técnica e a arte.
No penjing a prória obra, ao mostrar a fantasia do autor, contagia e autoriza o observador a fantasiar também, se despir um pouco dos rigores formais. Esse é um dos efeitos simpáticos do penjing: permitir a fantasia, permissão essa implícita na composição onde o autor a convoca, ao se permitir usar figuras de pessoas, animais, objetos, construções típicas, etc. Esse tom lúdico do autor autoriza o observador a "entrar na brincadeira", e mais: explicita que a fantasia é válida e aceita, um componente agradável e legítimo da existência.
O penjing tem um tom de hospitalidade, de acolhimento do observador, nem sempre presente nos bonsai, embora existam critérios estéticos do bonsai que buscam essa interação gentil com quem o olha: a inclinação do ápice, com se a árvore inclinasse a cabeça em saudação ao observador; o cuidado em evitar os galhos que apontam diretamente para quem olha - gesto considerado indelicado -; o posicionamento dos galhos laterais "em movimento de abraçar o observador". Mas tudo muito mais sutil no bonsai que nos penjing. Aliás, sutileza é uma das características estéticas do bonsai, não perseguida em penjing.


Abaixo, em sequencia, duas fotos de obras de Paulo Netto, copiadas de seu blog http://aidobonsai.com/  


 acima - vista geral da composição

acima: detalhe do "caminho" dentro da "floresta" de Netto.


O Penjing não evocam apenas a natureza, mas a presença do homem no mundo e questões existenciais. Para isso fazem junção de objetos culturais (feitos pelo homem) aos naturais (pedras, plantas, árvores, animais - ainda que miniaturas ou reais, como peixes nos lagos). A presença de objetos culturais na composição dá o tom penjing. É a presença desses objetos que permitem ao observador se imaginar na cena, na paisagem ante seus olhos, cruzando a minúscula ponte, aparecendo à porta da cabana sob as árvores, segurando a vara de pescar que a figura usa, navegando no bote, cruzando o caminho que se perde entre a vegetação ou visitando os espaços representados no penjim. Contudo, nem sempre objetos culturais estão presentes. Há muitos penjing evocando paisagens selvagens. Sempre evocando algum lugar que desperte o desejo de visitar ou no mínimo compartilhar a sensação que a vista provoca.

O penjing tem uma leveza de brinquedo, informalidade, leveza de regras e tolerância não só à imperfeição, mas ao amador, ao feito por prazer. Talvez o risco do penjing, se exagerado, seja romper com conceito de penjing como arte e passar a produzir "obras" de tom vulgar ou infantil. Não é raro que a denominação "penjing" seja usada como estratégia para disfarçar falta de técnica e de talento (pessoas que relativizam a técnica e afirmam "tudo é uma questão de opinião, a forma básica da natureza não tem regras, tudo vale"). Como diz Liang: basta colocar uma obra de arte digna desse nome perto de trabalhos de má qualidade para saltar aos olhos que a qualidade estética e expressiva das obras não é mera questão de opinião. Não, nem tudo vale.
Ressalve-se a necessidade de reconhecer e respeitar o direito das pessoas se divertirem como podem e gostam. Não fosse assim, como eu me atreveria a ter um blog sobre bonsai? (rs...). Aliás: minha preferência é pela delicada e austera sofisticação da técnica japonesa.
Assim como há riscos se se leva a extremos a liberdade de criação nos penjing, também há riscos (em termos de perda da noção de bom gosto e limites do que se considera arte) também na forma como se faz bonsai. Talvez o risco do excesso em bonsai (e que portanto se distancia da essencia do bonsai, ou no mínimo compromete sua qualidade) seja o formalismo intolerante, que sacrifica o efeito em nome das regras.

O interessante é que mesmo um "desapego às regras" pode encontrar amparo na própria arte, que junta a filosofia Zen com as técnicas e critérios de qualidade. A técnica bonsai, ao mesmo tempo em que sugere critérios objetivos para a forma que, se seguidos, aumentam a chance dos novatos produzirem árvores que possam ser chamadas de bonsai, aponta também qual efeito a ser buscado (mesmo à custa de regras), e cuja obtenção caracteriza o domínio e expertise. É quando o artista conquistou e desenvolveu um estilo pessoal. A competência de conseguir o efeito com o que tem disponível.
O bonsai tem um ar nobre, beira o aristocrático. De fato foram privilégio dos ricos no Japão dos séculos 17 e 18, nos primórdios do desenvolvimento da arte importada da China, quando os poucos bonsai disponíveis eram em geral coletados na natureza, muito raros e caros.
Em função desse histórico que ainda hoje ecoa, um bonsai pode, além de causar admiração e prazer estético, ser também intimidador, como qualquer símbolo de poder, estabelecendo distância entre a criação e o observador. Mesmo podendo até tocar num bonsai, a sensação de distância entre os mundos a que cada parte pertence está presente. Não é raro que a atração que muitas pessoas sentem pelos bonsai seja expressão de suas pretensões aristocráticas, uma tentativa de agregar valor à própria imagem pelo que a árvore simboliza, ou forma de obter prazer com o fetiche da posse desse objeto.
Então, como se dá (quando e se ocorre) a transição de temor para o respeito; do medo da hierarquia de classes ao respeito pela nobreza genuína; da pretensão aristocrática para o desfrute mais seguro de si e por si mesmo? Superando essa relação "apenas com o objeto" e deixando-se moldar pela arte.

Muito bonsaístas conhecem a sensação de que quem treina e poda é a árvore, e quem se desenvolve é o praticante da arte, não necessariamente a planta que se trabalha. Praticar uma arte é se esculpir, moldar, desenvolver, cultivar.
Está explicada a forte presença filosófica na própria qualidade estética. Foi o encontro do penjing Chinês com o zen-budismo no Japão que levou à arte bonsai, como hoje a vemos nas exposições japonesas. Sobre isso, há muitos anos encontrei, em reportagem de revista de bordo de uma companhia aérea, uma descrição da estética buscada nos bonsai (e portanto nos bonsaístas - lato senso, os que desfrutam ou se dedicam à arte), com a qual desejo concluir este artigo. Sem ter como citar a referência bibliográfica, há anos perdida, resta me desculpar com o autor por não saber o nome dele.


Sete características estéticas do Zen
Assimetria
Simplicidade
Naturalidade
Profundidade
Sublimidade austera
Liberdade de movimentos
Tranqüilidade






Acima: Planta vencedora Kokufu 86, em foto de Rodrigo Sousa






sábado, 26 de maio de 2012

Correções Ficus - cicatrizes, nebari, copa

Ficus do Gio (teve postagem anterior) está evoluindo. Nessa época o metabolismo da árvore fica mais lento, a seiva diminui de volume, e cortes maiores "sangram" menos.

Abaixo: como estava antes de começar o trabalho. Veja como galho da D, sem ancoragem, está tendendo a subir.


Abaixo: começamos retirando pastas de cicatrização velhas e limpando as feridas que precisam cicatrizar. Achado importante: duas das feridas mais profundas não estão cicatrizando bem. Após limpar a pasta velha as cavidades se mostraram profundas e com sinais de madeira apodrecendo.



Abaixo: medindo com o palito: uns 4cm de profundidade.


Abaixo (próximas 2 fotos): Antes de tentar colocar pasta nova, decidimos limpar e tratar a cavidade. Depois de retirados os fragmentos de madeira podre, é feito um tratamento com calda sulfo-cálcica pura. Algodão em um palito grande funciona bem.



Abaixo: se necessário, trocar o algodão até sair sem sinais de matéria orgânica em decomposição.

Cicatrizes limpas, ainda que falte muito para refazer algumas delas, que estão muito grosseiras e precisam ser recomeçadas. Depois de tratadas com calda sulfocálcica, precisam secar bem. Voltamos a atenção ao tatiagari e nebari.


Abaixo: raízes aéres nem sempre ficam bonitas. Essa raiz muito reta, embora fique escondida "nas costas" ("ura", em japonês) da árvore, não combina com o movimento do tronco.

Abaixo: removida a raiz feia, falta escovar o tronco e limpar a área que a raiz escondia.


Abaixo: Do outro lado (na frente à E da árvore) também havia outra raiz aérea que ficou feia, e ainda por cima prejudica a visão da conicidade do tronco. Enquanto eu fiz essa foto, Leandro estava ancorando o primeiro galho à D.

Abaixo: para retirar, nada como ferramenta adequada. Esse alicate é chamado de "biconcavo" ou "corte lateral côncavo". Vai deixar a cicatriz rente ao tronco e acompanhando a curvatura natural.



Abaixo: agora o corte da extremidade de baixo. É só virar o alicate para manter o corte (e a cicatriz) sempre acompanhando a curvatura do tronco, nesse caso na junção do tatiagari com o nebari.



Abaixo: raiz removida, aparece de novo área do tronco precisando de escovação. Veja como quase não escorre seiva dos cortes. Enquanto isso, o galho à D já foi ancorado e agora Leandro procede à aramação. 

Abaixo: outro ângulo com mais detalhes do tronco, antes parcialmente escondido pela raíz, após limpeza.


Abaixo: grande calombo na frente da planta, próximo ao ápice, formava um "peito de pombo" e foi removido. A coloração alaranjada é da pasta de cicatrização, que irá ficar acinzentada em alguns dias.

Abaixo: De volta à bancada, com uma diferença: não foi regada de novo. A intenção é deixar as grandes cavidades que foram limpas e tratadas com calda sulfo-cálcica secarem completamente, estamos pensando seriamente em preenchê-las com resina epóxi ("durepox") nos próximos dias, assim que a humidade do ar cair mais. Isso quer dizer que a rega será cuidadosa para molhar apenas o substrato até estarmos seguros de que não irá se acumular água nos buracos e apodrecer de novo.


Foi aramada, metsume leve feito, galhos com reposicionamento discreto, cicatrizes limpas, duas raízes feias retiradas, cobertura do substrato com restos de adubo e de serragem das limpezas trocado por nova camada limpa. Tivemos de nos esforçar para resistir à tentação de  transplantá-la também, para vaso mais raso que irá realçar o tronco. Mas a época não é boa, melhor esperar a primavera já estar a todo vapor (lá para início de outubro).

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bonsai ou penjing?

Abaixo: a mesma planta - um resedá -, na primeira foto, no vaso (bonsai). Depois, compondo paisagem (penjing). Fácil?



Os exemplos acima introduzem o assunto desta postagem, e que já apareceu - sem ser discutido - em outras postagens: tenho me referido a algumas plantas ora como bonsai, ora como penjing.

Considerando que eu mesmo tive dificuldade em entender a diferença, me proponho a compartilhar até onde consegui chegar. Para isso, além de mostrar ilustrações, faço uma revisão do assunto, incluindo tradução do melhor artigo que encontrei. Trata-se de texto de Robert Steven, publicado no blog dele: http://robert-steven.ofbonsai.org/Robert é bonsaísta que vive na Indonésia e autor de livros e exposições de bonsai, autorizou prontamente meu pedido para uma versão em português aqui publicada. Reproduzo o texto original ao final desta postagem para facilitar tanto o acesso como para checar a tradução e permitir que um leitor faça sua própria versão.

Para facilitar a compreensão, ocasionalmente coloquei no texto algum comentário ou explicação adicional, entre colchetes, ex.: [...no livro...], ou uma ilustração, "quebrando" a diagramação original, que tem apenas texto. Deve ser dito que Steven escreve de maneira poética e sofisticada, tornando difícil "traduzir" o estilo. Independentemente da língua é necessário algum esforço para manter sintonia com o que ele diz e acompanhá-lo. E compensa. Começo pelo texto, depois mostro algumas fotos para tentar ilustrar os conceitos de bonsai e penjing.

Diz Robert: [edição do texto, como uso de itálicos, foram mantidas conforme o original]

Algumas pessoas me dizem que meus bonsai são penjing corrompidos, e que meus penjing não são autênticos. Antes de ir adiante, gostaria de explicar a diferença entre penjing e bonsai. Penjing é o mesmo que bonsai? Existe uma diferença no conceito e filosofia?

A resposta é: Sim - e Não! Depende do contexto da discussão. Esse tem sido ponto de controvérsia que se delonga, já que há poucos artigos sobre penjing escritos por fontes chinesas competentes. Confusão sobre esse assunto pode ser encontrada em livros, artigos e em discussões nos fóruns online. Nessas instâncias as duas artes são consideradas a mesma coisa - simples problema de tradução - mas outras vezes elas são referidas como duas formas de arte diferentes. Então qual é a verdade?

Deixem-me começar pelo entendimento básico das palavras, "bonsai" (japonês) e "penjing" (mandarim). Pen = vaso, jing = vista ou paisagem. Penjing significa "paisagem num vaso". Bonsai em japonês significa "plantado num vaso", o que traduzido para o chinês é penjai ou penzai. Essas palavras significam simplesmente "planta em um vaso". Qualquer planta que esteja em um vaso é chamada penjai. E penjing não tem o mesmo significado que bonsai, como entendemos hoje. O que chamamos de bonsai, em mandarim é chamado shujuang penjing. Em artigos e discussões, a palavra shujuang é usualmente deixada de fora, sendo usada apenas a palavra penjing. Então, num contexto bem geral, bonsai é o mesmo que penjing porque todos sabemos sobre o que estamos falando - por eliminação da palavra shujuang. Mas num contexto específico, penjing é diferente de bonsai.

Penjing tem um sentido mais amplo, como forma de arte com nuances específicas. Shujuang penjing (bonsai) é apenas um dos estilos na arte penjing, mais ampla. Há shanshui penjing (penjing de pedra), bigua penjing (penjing de colocar na parede) [no livro da Amy Liang há foto dessas paisagens com árvores miniaturas para pendurar na parede, como um quadro, que reproduzo abaixo para dar uma idéia do que se trata], shuihan penjing (penjing de água e terreno), shushe penjing (penjing de árvore e pedra) - etc.  A filosofia básica do penjing é "Yua yu je zan, Gao yu je zan", que significa "inspirado pela natureza, admirado como superior à natureza".






Acima: exemplo de bigua penjing, retirado do livro de Amy Liang  "The living art of Bonsai", 2005, p. 57.

Com penjing tentamos recriar a beleza da natureza sem eliminar as imperfeições da natureza. Há uma grande dose de criatividade e liberdade na forma como o artista pode fazer isso com penjing. A alma do penjing é revelada mais na apresentação como um todo; na mensagem temática, no simbolismo e poesia. A aparência é natural, a estética não depende tanto dos detalhes anatômicos da árvore. Penjing envolve mais uma expressão subjetiva, com referências emocionais pessoais muito fortes. Perfeição anatômica não é um requisito em penjing porque a natureza é imperfeita. A habilidade técnica, importante para bonsai, não é tão importante em penjing. Em vez de aplicar habilidade às árvores, ela deve ser direcionada mais para obtenção do efeito de uma mensagem temática ao observador. A essencia do todo mais importante em Penjing é "Hua jong you se, se jong you yu; Jin jong you dong, dong jong you diao", significando "dentro do quadro, há poesia; dentro da poema; há sentido; no silêncio, há movimento, no movimento, há ritmo". O aspecto objetivo do penjing é reproduzir o fenômeno da imperfeição natural. O aspecto subjetivo é baseado em equilibrar a aparência de um movimento capturado da natureza, com uma mensagem implícita de um tema. Na apresentação da mensagem, nuance e simbolismo devem ser usados para valorizar a aparência como um todo. Esse efeito requer interpretação imaginativa por parte do artista e do observador.


O que estou fazendo com meu próprio trabalho é combinar aspectos objetivos do bonsai com aspectos subjetivos do penjing, a beleza do refinamento estrutural do bonsai com a beleza interior da aparência simbólica do penjing, tudo para dar nuance única ao resultado. Na minha opinião, o termo "autentico" não tem relevancia em arte. Um artista deve ser capaz de atingir seu próprio caráter e identidade. Eu não estou tentando criar meu próprio estilo [referindo-se a um dos estilos de bonsai - shokan, moyogi, etc.], mas tentando encontrar possibilidades novas, inovadoras, baseadas em aplicação de meus próprios conceitos estéticos. Não há o absoluto em arte e beleza. Para a apreciação de uma criação artística acontecer, deve haver uma interação emocional entre o objeto de arte e o observador. Isso requer comunicação entre o objeto de arte e quem o olha.


Se há um sabor chinês forte no meu trabalho, isso é simples reflexo de meu gosto pessoal e interesse na filosofia oriental, como a poesia caligráfica chinesa ou os poemas Tang, sentimentais e melancólicos. Como foi dito antes, arte é uma coisa viva que continuamente interage com a vida através de quem a vê. Bonsai também é um tema vivo, que muda de acordo com regras da natureza e horticultura. Dessa forma, as regras da arte do bonsai são baseadas tanto nas regras do fenômomeno natural como nas fantasias dos indivíduos e convenções sociais. Minha definição de beleza pode não ser a mesma de outra pessoa. Interpretações e percepções de beleza são muito pessoais. Dependem da bagagem, conhecimento, cultura, valores sociais locais, experiências e mesmo das condições emocionais do observador num dado momento.


Meu trabalho é um reflexo de meus próprios sentimentos e atitude. Ao fazer bonsai, não estou muito preocupado com o efeito final, mas mais com o processo prazeroso. Aproveito o processo lento de revelar o caráter e identidade da árvore - um processo que coloca minha vida em paralelo com a jornada de vida da árvore. É mais um processo de meditação ativa e cultivo de uma relação onde me coloco "de alma" com o objeto artístico, ao invés de exploração simples e superficial do objeto. Entre a árvore e eu não há comunicação verbal, e no entando há um entendimento que ecoa.


Visto o texto, vejamos outros exemplos. As três fotos abaixo são de plantas mostradas na exposição Kokufu 80 (são fotos de fotos, por isso a qualidade ruim). Lembrando que Kokufu é a exposição máxima de bonsai japonês, ou seja, são fotos de bonsai.

A primeira, um pinheiro plantado em pedra, com plantas de acompanhamento plantadas junto. Ok, mas não evoca exatamente uma paisagem. E imagino que se possa afirmar que é uma árvore com acompanhamento: o pinheiro domina a visão.



Abaixo, outra confusão fácil: um bosque (que inclusive é um dos estilos de bonsai) é penjin?


E abaixo, a mais interessante: nessa composição, a imagem da planta à beira de um barranco (o conjunto) é muito mais forte que a planta em si. A sugestão de paisagem, de contexto, é mais forte que apenas a planta. A meu ver, tem muito de penjin.


Final da (e começo de nova) história: Penjing e Bonsai (com letras maiúsculas) são artes diferentes, chinesa e japonesa. Um bonsai (uma árvore feita por artista devotado a Bonsai), como acima, pode ser reconhecido por artistas chineses como penjing, pelo seu poder de evocar uma sensação relacionada à paisagem que sugere. Mas dificilmente um penjing "puro" (onde frequentemente há figuras humanas, pontes, pagodes, animais) será visto como "bonsai" pelos japoneses. Acrescente-se que falta de técnica produz brinquedos ou, no máximo, dioramas. Cada um se diverte como pode e deseja. Só não dá para dizer que qualquer coisa é arte... Arte é resultado de boa técnica, bons materiais e senso estético com sensibilidade. Esses componentes nem sempre estão todos presentes, mas numa obra realmente impressionante são imprescindiveis.

Vamos ver outras fotos de trabalhos de autores chineses (ou de tradição chinesa):


Acima: essa composição de Su Chin Ee, artista de Singapura, aparece no seu livro "Creating Bonsai Landscapes", (2003, p82-83.), publicado na Inglaterra. A parte interna da capa deste livro descreve penjing como "an older form of bonsai" (uma forma mais antiga de bonsai): a confusão conceitual é comum.


Acima: mais uma obra de Amy Liang (op. cit., p. 68). Evidente junção de evocação sentimental da paisagem associada a árvore trabalhada com técnica apurada. A árvore é parte do quadro, dividindo atenção com outros componentes e - mais importante - com o todo. A sensação transmitida pela obra não seria possível apenas com a árvore e o "vaso". Liang também se refere a essa foto como sendo de "bonsai".

Abaixo: Reprodução de ilustrações do livro de Chye Tan, talvez o autor que mais explicitamente expressa a filosofia penjing, em seu livro "El espíritu del diseño en bonsái - el poder del zen y la naturaleza" (2005). Tan literalmente busca descrever como obter o efeito de provocar determinados sentimentos, objetivando quais características as composições devem ter para tal.

Acima: o apelo melancólico é evidente, objetivado nas ruínas e no estilo "chorão" da árvore. Sobre esta foto, diz Tan (2005, p. 36): (...) "El entorno hace aflorar sentimientos de wabi."

 

Acima: mais uma composição retratada no livro de Tan (op. cit., p. 23): "(...) viva interacción de elementos que recuerdam los almendros del sur de Francia". As árvores não mostram técnica nem características tidas como desejáveis em bonsai.


Acima: outra composição do livro de Tan (p. 138) É evidente que o trabalho nas árvores, individualmente, não é o mais importante para provocar os sentimentos de grandiosidade da cena, que parece ter lançado mão inclusive de recursos de fumaça de gelo seco para criar uma "neblina". A ave (cegonha) parece ser o centro da atenção, não as plantas, que aliás são quase simples demais.

Abaixo: essa composição (Tan, p. 75) é cópia de paisagem real (pedra Ko Tapoo, litoral da Tailândia). Mais importante que ter aparência exata do real, é causar a mesma sensação de perda de fôlego e espanto. Desde que não se olhe detidamente os shimpaku, pobremente trabalhados e mesmo pouco saudáveis.

Abaixo: o pagode e as pequenas suculentas entre as pedras e os bosque tornam difícil considerar essa composição um "bonsai". O próprio Tan, no entanto, se refere a ela como tal (p.20).


Não há como negar que juntar o rigor técnico do Bonsai (incluindo sua estética zen-budista) com o refinamento e expressividade do Penjing (tipicamente "chinês") amplia as possibilidades e alternativas de satisfação com a arte, esse novo "bonsaísmo sincrético". Percebam que mantenho a primazia do Bonsai (ao invés de dizer "penjing sincrético"). Isso se deve à hegemonia, no Brasil, de influência japonesa - temos a maior colônia de japoneses residindo fora do Japão - em relação aos chineses e população do sudeste asiático em geral, onde também há bonsai, vasos, adornos, etc., excepcionais - vide o próprio Steven, que vive na Indonésia.

Essa leitura nova também dá uma nova interpretação ao trabalho de Bonsai moderno, como o de Kimura, expoente do Bonsai japonês mais famoso no mundo ocidental. Kimura também aponta e estimula a superação do que ele chama de "preconceitos" e apego excessivo às regras. Vendo alguns trabalhos contendo filosofia penjing, percebe-se que o fato de Kimura incorporá-la é mais sinal de evolução como artista, não de estar "rendendo-se ao penjing". Trata-se de uso da técnica, com liberdade de expressão e criação, obtendo efeitos tocantes.

Abaixo: O título deste trabalho - "Em busca de paisagem chinesa" - não deixa dúvidas sobre a abertura de Kimura às influências penjing. No entanto, a beleza da composição não existiria se não fosse a técnica Bonsai aplicada à estilização (onde sobressai aramação) e posicionamento das árvores. Retirado de Schoech (ed.): "The Magician - The bonsai art of Kimura 2". 2007, p. 96.

Abaixo: outra composição impressionante de Kimura, apresentada e premiada em exposição de Bonsai (26a Nihon Bonsai Sakufu Ten). O reconhecimento público da comunidade bonsaísta japonesa, obtido por Masahiko Kimura, não é resultado de mera rebeldia como artista, mas uma conquista de competência para ir além das normas e desenvolvê-las.

Então para complicar (não resisti): encontrei essa foto abaixo no site http://www.bonsai-slovakia.sk/12foto-bonsai.htm






Consegue dizer o que é? Penjing? Bonsai? Seria um penjing de jardim de bonsai?


Nenhum nem outro. É um diorama (ou, se for relacionada a um projeto real, maquete de jardim). Adiciona leveza e bom humor, mas não se enquadra em nenhuma das artes - não é evocação da natureza, nem árvore miniatura, estilizada e trabalhada, em vaso.

Bonsai - admiração pela beleza.

Penjin - sedução de devaneio e fantasia.


Espero ter ajudado.


E em tempo: a maioria dos livros citados - incluindo os de Robert Steven - estão disponíveis no site da loja "stone lantern", onde também pode-se acompanhar o blog do Wayne Schoech. 
O endereço: http://bonsaibark.com Fiz algumas compras e fui muito bem atendido. Entrega sem problemas no Brasil, embora leve umas 3-4 semanas para chegar.


Para terminar, como prometido, o texto original do Robert Steven, tão generosamente cedido:

Some people say that my bonsai are contaminated penjing, and that my penjing are not authentic. Before going further, I would like to explain the difference between penjing and bonsai. Are penjing the same as bonsai? Is there a difference in concept and philosophy?
The answer is: Yes- and No! It depends on the context we are discussing. This has long been a controversial issue since there are few articles written about penjing by competent sources from China. Confusion on this matter can be seen in books, articles, and in online discussion forum threads. In these instances the two arts are considered to be the same — simply a matter of translation — but at other times they are referred to as two different art forms. So what is the truth?
Let’s start from the basic understanding of the words, “bonsai,” (Japanese) and “penjing” (Mandarin). Pen = pot, jing = view or landscape. penjing means “landscape in a pot”. Bonsai in Japanese means ” planted in a pot,” which if translated into Chinese is penjai or penzai. This simply means “plant in a pot.” Any plant that is in a pot is called penjai. So penjing does not have the same meaning as bonsai, as we understand it today. What we call bonsai, in Mandarin is called shujuang penjing. In articles and discussion, the word shujuang is usually left off, leaving just the word penjing. So, in a very general context, bonsai is the same as penjing because we all know what we are talking about – by eliminating the word shujuang. But in a specific context, penjing is different from bonsai.
Penjing has a broader context in this art form with its own specific nuance. Shujuang penjing (bonsai) is just one of the styles in the broader penjing art. There are shanshui penjing (rock penjing), bigua penjing (wall-hanging penjing), shuihan penjing (water and land penjing), shushe penjing (tree and stone penjing)-etc-The basic philosophy of penjing is “Yuan yu je zan, Gao yu je zan,” which means “Inspired by nature, admired as superior to nature.”
With penjing we try and recreate the beauty of nature without eliminating the imperfections of nature. There is a great deal of creative and natural freedom in how the artist may do this with penjing. The soul of penjing is revealed more in the whole presentation; the thematic message, the symbolism and poetry. The presentation is natural, without too much of the aesthetic depending on the anatomical details of the tree. Penjing is involved more with a subjective expression, with very strong individual emotional references. Anatomical perfection is not a main requirement in penjing because nature is imperfect. The technical engineering skill important to bonsai is not so important in penjing. Instead, the application of skill should be relevant to the tree only in order to successfully convey the thematic message to viewers. The essence of the whole principal in Penjing is “Hua jong you se, se jong you yu; Jin jong you dong, dong jong you diao,” meaning “Inside the picture, there is poetry, inside the poem, there is meaning; in the silence, there is movement, in the movement, there is rhythm.” The objective aspect of penjing is to follow the phenomena of natural imperfection. The subjective aspect is based on balancing the presentation of the captured moment from nature with the implicit message of the theme. In the presentation of the message, nuance and symbolism should be used to accent the overall presentation. This fact requires imaginative interpretation by the artist and viewer.
What I am doing with my own work is to combine the objective aspect of bonsai with the subjective aspect of penjing, the beauty of the structural refinement of bonsai with the inner beauty of the symbolic presentation of penjing, all to lend a unique nuance to the result. In my opinion, the term “authentic” has no relevance to art. An artist should be able to make his own statement of character and identity. I am not trying to create my own style, but rather trying to find new, innovative possibilities based on my own applications of aesthetic concepts. There is no absolute in art and beauty. For appreciation of artistic creation to occur there should be an emotional interaction between the art object and the viewer. This requires communication between the art object and the viewer.
If there is a strong Chinese flavor in my work it is simply a reflection of my personal taste and interest in Oriental philosophy, like poetic Chinese calligraphy or the sentimental and melancholy Tang poems. As has been said before, art is a living thing that continuously interacts with life through those who view it. The medium of bonsai is also a living subject that changes according to the rules of nature and horticulture. So the rules of bonsai art are based both on the rules of natural phenomena and the whims of individual and societal convention. My definition of beauty may not be the same as someone else’s definition of beauty. Interpretation and perception of beauty are very individualistic. It depends on the viewer’s background, knowledge, culture, local social values, experiences, even the current condition of the viewer’s emotions.
My work is a reflection of my personal feelings and attitude. In making bonsai, I am not too concerned with the final destination, but rather with the joyful process. I enjoy the slow process of revealing the character and identity of the tree — a process that brings my life into parallel with the tree’s life journey. This sort of endeavor is more of an active meditative process and the cultivation of a soulful relationship with the artistic medium, instead of simply a superficial exploration of the medium. The communication between my medium and me may not take place with verbal communication, but there is an echo of understanding, nonetheless.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Junipero kifu-bonsai moyogi com shari

Juniperus horizontalis, "jacaré" ou "tuia jacaré", são nomes cientifico e comuns dessa conífera. Difícil afirmar se essa identificação, obtida com um proprietário de viveiro de mudas, procede.   

Apresento a evolução de uma planta desde quando foi adquirida de comerciante de bonsais. A primeira foto abaixo é da época de aquisição: março de 2007.


Abaixo, em junho de 2007, colocada em vaso com um pouco mais de espaço. Cometi erro grave: a planta ficou mal amarrada no vaso, nos meses seguintes começou a definhar (qualquer ventinho abalava as raízes capilares, esse estresse contínuo debilitou a planta).

São dezenas as espécies do gênero Juniperus. Schoech (editor, 2007, p. 1) cita "entre 50 e 67 espécies, dependendo de com quem se fala". Nishiyama e Miquel, na tradução que fazem do Shinkikaku-sha (ao que parece, originalmente publicado em 1987, com contribuições de vários autores japoneses), cita diversas variedades de Juniperus rigida. Nenhuma das espécies do gênero é nativa do Brasil, onde são usadas em jardinagem há mais de 50 anos (informação pessoal do Tio Hugo, em Brasília, em 2008, que as viu na cidade de Viçosa - Minas Gerais -, nos anos 1950, e confirmada em flora de Curitiba, Paraná, em 2010). 

Segundo Lorenzi (2003, p. 70), a espécie aqui ilustrada - J. horizontalis -, é oriunda dos Estados Unidos, sendo cultivadas no Brasil as variedades douglassi variegata.

O porte pequeno e a tendência a crescer rente ao chão ("arbusto prostrado") forma troncos com movimento, mas raramente com mais de 10cm de diâmetro, mais propícios a mame e shohin-bonsai. Não é incomum obter bom material para bonsai em "yamadori urbano", a partir de plantas de jardins, principalmente nas cidades do sul e sudeste do Brasil. Vi centenas de plantas em jardins públicos no Uruguai (ex.: Punta del Este), muitas delas excelentes pré-bonsais.



Abaixo: setembro de 2007, visivelmente fraca. Para começar, foi fortemente imobilizada no vaso. Além dos cordões externos, um arame foi passado firmando o torrão no vaso.



Abaixo: outubro de 2010, lenta recuperação. A cor melhorou, e havia acabado de passar por pinçagem e re-aramação. Parte interna do nebari vivo junto ao início da curva do shari teve perda de raízes que morreram, precisando ser removidas e a madeira morta tratada. Estava indo bem, mas o ápice começou a ficar desproporcionalmente forte em relação ao resto da planta.


Abaixo: fevereiro de 2012. À custa de adubação abundante e pinçagem repetidas, a ramificação começa a melhorar. Aramações foram várias. A planta sempre amarrada no vaso. O ápice foi reduzido para redistribuir a força para os galhos mais fracos.


Abaixo: 20 de maio de 2012. Evoluindo. Agora é deixar encher a copa e ir pinçando apenas onde a força estiver muito concentrada, distribuindo a seiva da planta mais homogeneamente. Está saudável, apesar de pouco frondosa. Já dá até para pensar em voltar para vaso menor, para valorizar mais. Isso deverá acontecer no final do inverno, lá pelo início de setembro.


Altura: 31cm; nebari: 6cm. Altura/nebari = 5,2. Com isso (altura entre 25 e 35cm), pertence à categoria é "kifu-bonsai" (Albek e Schoech, 2007, p. 7). O estilo é moyogi, e o tronco parte com madeira morta exposta ("shari").