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sábado, 9 de junho de 2012

Ten kei - objetos de acompanhamento

Objetos usados para acompanhar um bonsai - em exposições públicas ou na intimidade do tokonoma - são chamados Ten-kei. Esses objetos de acompanhamento provocam efeito parecido ao obtido com a composição nas obras penjing (evocar uma sensação e uma mensagem temática), mas no bonsaísmo isso é feito de forma mais sutil.
Abaixo: Colhereiros ou "ajajá" compondo acompanhamento com plantinha. Essas aves - Platalea ajaja - ocorrem em beiras de rios e lagoas, portanto evocam esses ambientes, onde a mata pode ser pujante. Essas esculturas, com cerca de 10cm, vieram dos arredores de Cuiabá (MT). O artista não foi identificado.



Não é habitual usar esculturas coloridas como ten-kei. Elas devem mais sugerir um clima, não serem o centro das atenções. Também não é "normal" serem colocadas no mesmo vaso do kusamono, como nesse caso. Isso é algo contra as regras, e deve ficar bonito para ser ao menos esteticamente justificável.
Abaixo: Cereja do Rio Grande (ocorre em áreas próximas dos rios) com os colhereiros em kusamono simulando vegetação de área alagada. Ao fazer a composição, o ideal é que o acompanhamento chegue à altura da mesa do bonsai, ou seja, esse acompanhamento é melhor para árvores e mesas mais altas.
Há uma grande variedade de coisas que podem ser usadas com acompanhamento dos bonsai, além de pequenas plantas em vasos (kusamono - veja-se postagens sobre eles). 
Pedras (suiseki) e esculturas são exemplos comuns. Está implicita a idéia de que suiseki e kusamonos, quando usados para acompanhar bonsai, são um tipo de ten-kei.


O que caracteriza os ten-kei é o propósito com que são usados: estimular uma impressão e destacar a beleza do bonsai (é um acompanhamento, não o principal). Existem alguns princípios que orientam o uso. Por exemplo, eles podem fazer referência a uma estação do ano. Exemplos típicos são kusamonos de flores para acompanhar um bonsai na primavera; ou os grous - que no Japão são uma presença forte no inverno - para acompanhar uma planta desfolhada e sugerir paisagem invernal. Isso quer dizer que existe uma linguagem e entendimento culturalmente estabelecidos sobre o significado dos objetos, nem sempre compartilhados por outras culturas. No Brasil, a simbologia das garças (com que os grous, inexistentes aqui, são confundidos) não é com estações do ano, mas com ambientes bucólicos e tranquilos.
As esculturas orientais são carregadas de simbolismos, e quando usadas fora de contexto podem causar estranheza para os que conhecem seu significado. Mergulhões, caracóis e grilos são símbolos do verão no Japão, simbologia essa inexistente no Brasil. Muito mais fácil é usar os acompanhamentos para sugerir um bioma específico, um habitat ou ambiente natural do bonsai ou da árvore por ele representada. Observe-se que a "árvore sugerida" nem precisa ser a mesma espécie do bonsai. Por exemplo, um shimpaku (conífera exótica, Juniperus chinensis), de tronco cheio de movimentos, jin e shari, pode lembrar as árvores retorcidas do cerrado brasileiro e ser acompanhada de algo que remeta ao cerrado para que a analogia fique clara para o observador.

Acima, composição razoável. O vaso é grande demais, mas as cores da árvore, do vaso e do ten-kei de tucanos combinam.


Detalhe das aves - Ramphastos toco, o tucano mais comum na região sudeste do Brasil, mesmo habitat das jabuticabeiras. Os tucanos foram adquiridos em loja de artesanato e lembranças para turistas em Cuiabá - MT, e infelizmente não contêm identificação do artista.


Acima e abaixo: mesma árvore, ten-kei diferentes. Para uma árvore como essa, que sugere ambiente mais árido, uma ave de rapina (um falcão ou gavião) seria mais apropriado. A árvore também não está em bom momento para ser exposta: a folhagem em brotação precisa ser pinçada e refinada, o ar mal-acabado não combina com o refinamento que a composição tenta criar. Os tucanos pousados em madeira combinam com a madeira exposta da árvore.


Abaixo: os pica-paus em cristal Swarovski - belíssimos - são chamativos, grandes, brilhantes e coloridos demais, dominam a show que deveria ser do bonsai.


Abaixo: uma mudança de lado suaviza um pouco a dominância do ten-kei sobre o bonsai, mas não é suficiente para equilibrar essa composição difícil. Além da mesa (dai) ser muito grande, as aves são "over" para a planta.

Acima: mesmos problemas anteriores, com o agravante da dificuldade de conciliar o tema: martins-pescadores evocam paisagens com água, o tosho evoca ambientes áridos.



Os martin-pescadores combinam com o bambu (na verdade, é comum ver esses pássaros pescando em regatos como o representado nesta criação). Gostei. A proporção entre dimensões dos ten-kei e o vaso também fica menos desequilibrada.


A maioria dos ten-kei japoneses são de tamanho e cores discretas (ex.: bronze, no máximo com leve pátina ou pintura muito suave). Usar esculturas de cristal Swarovski como ten-kei será exagero? o colorido e a beleza deles ofusca meus bonsai de qualidade ainda pobre. Teria de ser uma planta muito boa para esses pássaros não virarem o centro das atenções. 

Abaixo: Muito mais discretos, pequenos veados mateiros Mazama. Esculturas em madeira de Marcelo dos Santos, artesão cuiabano. A mais alta tem 6cm. Os focinhos e cascos são escurecidos com pirografia.


Abaixo: usando um dos Mazama acompanhando o Cambuí. Tudo, inclusive a esteira de palha que substitui a Dai (mesa de exposição) evoca cerrado brasileiro, o arranjo todo tem leveza e simplicidade para ser usado inclusive no dia-a-dia, como é o caso. O leve desleixo com a poda da árvore não incomoda. Amadores podem. E é claro que pode ficar melhor.


Abaixo: mais esculturas do mesmo artista popular. Todas de animais da região do Pantanal e áreas próximas (cerrado e matas ciliares). Uma lontra.


Uma mãe pecari (queixada) com dois filhotes


Conjunto de esculturas - quati, lontra, tamanduá, paca e mateiro.


A palavra em inglês para os ten-kei é "accent" (object, sculpture, plant, etc.). Podemos brincar com um falso cognato dos "accent" e dizer que os ten-kei são uma "acentuação" de um sentimento ou imagem. Mas fica melhor se usarmos uma tradução mais aproximada de "accent": sotaque, tom, nuance específica, tipicidade. Então fica mais fácil justificar o uso - para evocar as paisagens mineiras - de casinhas de barro cozido e pintado, procedentes do vale do Jequitinhonha, MG. A artista assina as peças: "Jovita". A mais alta tem 12cm. Disponíveis no Mercado Central de BH e na loja virtual www.postaldeminas.com.br



Bem, tendo falado de Minas, falo de casa, o ciclo se fecha, tiro os olhos desses brinquedos e olho ao redor. Cuidado com o hobby: é só um hobby. Se houver dúvidas, é só elevar os olhos, ou consultar as fotos abaixo para ver de fato quem acompanha quem e o que realmente interessa. Fica claro: podemos agregar coisas aos hobbies para aumentar a diversão. Mas são os hobbies, como bonsai, que devem nos acrescentar e serem nossos "ten-kei". Abaixo: Giordano Barggiona Campos - 2 anos e 8 meses; altura 96cm.


Viram? E nem mostrei a Fafá e o João Pedro...

As florinhas da Maxillaria, micro-orquídea, se abrem como um insight. Quando teremos fotos que  transmitam seu perfume suavíssimo?

Na mão de Fafá, pode-se ter idéia das proporções - das flores e da mulher, o parâmetro.



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